Algumas considerações sobre os últimos dias

Sigo colecionando porquês, sempre tentando responder a uma questão, criando outra ainda maior. Sempre coerente. Tudo a minha volta sufoca. Cansa e sufoca. Quando criança eu costumava observar as pessoas, a troca de amor e afeto entre elas me fascinava, parecia que o mundo era um conto de fadas e eu sonhava com o dia em que faria parte de tudo isso, embora naquela época eu confundisse felicidade com bola de futebol. Hoje, eu ainda gosto de observar as pessoas, mas é tão difícil ver amor e afeto entre elas, que parece que quando nos tornamos adultos, nos perdemos em simples detalhes. Vejo rostos que se olham no espelho, obcecados por um corpo perfeito. Mas e depois? As pessoas programam momentos inesquecíveis que devem ser o máximo interessante possível já que estarão em suas redes sociais. Mas e depois? As pessoas estão presas à sua liberdade, elas estão sendo controladas pela possibilidade de fazer quase tudo. Mas e depois? As pessoas estão imersas em um mar de egoísmo: “EU” “EU” “EU”!  A necessidade de impor o meu “eu” ao “eu” do outro, de julgar as pessoas sem ao menos a necessidade de julgamento. As pessoas estão vendendo seus sentimentos pra comprar status, e eu já não sei se a agonia que sinto é por não conseguir agir assim, ou por querer agir assim e finalmente fazer parte de algo, mesmo que seja algo muito podre. Confesso que muitas vezes (muitas mesmo) necessito me encarar no espelho, pra lembrar que tem muita gente dentro do meu olhar, gente que me ensina que existo mais por dentro que por fora.

Por isso adotei o hábito de imaginar coisas absurdas e me tornei uma distraída praticante. Penso em escrever bilhetinhos com letras infantis, palavras coloridas, três jujubas pra viagem, em envelopes selados com saliva, e enviar pra gente que nem conheço, só pra ser o sorriso de alguém. Sou viciada em palavras, mas prefiro o silêncio de um abraço. Aliás, tenho vontade de pegar os melhores abraços e coloca-los num potinho com rótulos do tipo: “abraço sabor calor/frio na barriga” ou “mantenha lembrança, contém abraços fresquinhos” e coloca-lo na estante na sessão dos melhores abraços.  Se eu entendesse algo de arte, talvez fizesse algo poético, mas eu só sei emoldurar raios de sol na memória, e criar roteiros de filmes com desenhos de nuvens.  Pelo menos dessa forma aprendi a me achar nas coisas simples e a compreender à sua boniteza, e tento trocar “enaltecer o ego” por “enaltecer a alma” sempre que der.

“A vida mais doce é não pensar em nada.”
Friedrich Nietzsche

Anúncios
Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Cantoria

Às vezes…

Sua voz treme igual violão

Seu sorriso parece um acorde

A sua respiração vira melodia

E faz meus cabelos dançarem.

Fazemos harmonia

Somos composição,

Enquanto seus dedos dedilham

Meu corpo

Como se eu fosse sua

Canção.

Moço, vamos montar uma banda?

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Pensamentar

Acordei com um flash de sol nos olhos, esfreguei as pálpebras e a sensação de estar cega piorou, num lapso de surrealidade, me imaginei em um paraíso ensolarado, quente, que cheirava à alegria e sensualidade. Acordar com tesão. Perder a hora, mas não muito. Uma fome que parece dilacerar todos os meus órgãos; é com esta fome que acordo todas as manhãs, em especial quando estou apavoradamente ansiosa. Começar a semana com o fim de uma fase, e eu que já fui de achar segunda-feira dia ruim demais pra fazer samba, cantarolei com o chinelo arrastando no chão, um samba de roda e capoeira. E eu que já pensei trilhões de vezes sobre o porquê de estar aqui, em um mundo tão grande, vazio e ao mesmo tempo espetacular; me pego pensando demais no meu mundinho, com inho mesmo para ilustrar a total falta de maturidade que o norteia. Acordei e foi como se uma explosão de sentimentos conflitantes me chutassem a cara, da cama pro chão, extravasando qualquer indicio de procrastinação.

Primeiro pensamento do dia: “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar ousar é perder-se definitivamente”. Kierkegaard fundindo minha mente logo cedo!

Quando você se permite enfrentar o medo apesar de todos os riscos, e consequentemente mudar uma fase de rotina, estagnação e suposta segurança, e decide ser você mesmo apesar de toda complexidade e limitações a que tal decisão implica; algo inexplicável acontece: você fica apavorado à um nível de terrorismo interno que sente vontade de não sair da cama pelos próximos 55 anos.

 Segundo pensamento do dia: estou ficando louca!

Estou previsivelmente desequilibrada, não me dou mais ao trabalho de tentar ser uma pessoa centrada, porque é no meu desequilíbrio que me acho, sou de natureza instável. Preciso dos extremos para de alguma forma manter o desequilíbrio que me equilibra. Não precisa fazer sentido, só precisa me dar tesão pra viver. Só isso me basta. Sou racionalmente compulsiva, nunca me preparei para a vida, nunca me preparei para mim mesma, não posso me tornar compreensível; em minha mente, sou uma confusão que me mantém em um ritmo alucinante tal qual um furacão que mantém todo tipo de diversidade preso em seu interior, e eu preciso manter esse furacão interno pra combinar com meu metabolismo acelerado.

Tomei café. Sou relativamente simples, só preciso estar bem alimentada.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Uma analogia bobinha para a vida

Estou pensando seriamente em transferir para a minha vida, o critério que uso para correr. Geralmente, eu corro por volta das oito horas da manhã. O ar está fresco, uma brisa bate no rosto e bagunça meus cabelos, e indescritivelmente, essa mesma brisa parece preencher meus pulmões e eu fico me sentindo o próprio Forrest Gump, com vontade de correr sem parar por uns dois meses seguidos. Essa brisa enche meus pulmões de ar e me enche de um fragmento de vida diferente do que a gente vive normalmente, porque me dá vontade de ultrapassar todos os limites que me façam alcançar algum tipo de paz interior. E quando estou correndo, por alguns minutos eu consigo essa paz e vejo que a vida tem lá a sua beleza.

Os primeiros quinze minutos são cruciais, o ar começa a faltar, você encontra dificuldades para controlar o ritmo da respiração, e sente um impulso quase incontrolável de parar pra tentar recompor o ar. Nesse momento, eu me concentro e digo pra mim mesma “respire pelo nariz e solte pela boca e fique calma” e aos poucos começo a ter total controle sob o diafragma, e embora meu coração esteja batendo na garganta, a sensação de que meu cérebro vai saltar pra fora da cabeça começa a se dissipar.

Então depois de meia hora, a situação começa a ficar crítica, começo a sentir dores, as pernas começam a pesar uma tonelada, no mínimo, às vezes sinto umas pontadas na barriga, que até hoje não sei se acontece por falta de líquido, ou por respirar errado; e as veias que ficam nas têmporas parecem querer explodir. Nesse momento eu penso “essa dor vai ter que passar, porque eu não vou parar agora”.

Aos poucos, todas essas dores ficam em segundo plano. Olho a vista ao redor, geralmente composta por mato e vegetação; e imagino que estou correndo à beira da praia. O mar está agitado e a maresia me faz fechar os olhos e suspirar, como se todo dia eu me apaixonasse de novo pela natureza, pela vida, pelo aglomerado de células que constituem essa máquina biológica complexa da qual possuo poder e controle para movimentar e correr por ai, sem perceber que o principal objetivo ultrapassa, e muito, apenas uma bela forma física.

Às vezes, quando estou quase no final do caminho, olho pra trás, como se estivesse me certificando de que mais uma vez as limitações não vieram comigo; me sentindo orgulhosa de mim mesma porque eu não parei, eu não desisti, eu segui até concluir o objetivo, que por mais idiota que pareça, era apenas conseguir manter o meu tempo ou ultrapassá-lo.

Eventualmente, é nesse momento que penso como sou contraditória, já que eu não deveria fumar, e mais uma vez prometo para o universo que vou parar, só que eu não consigo viver sem um veneno pra minha alma. Ainda não.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Serenata de chuva, poesia de vento

Hoje o vento bateu na minha porta. Bateu de leve e assoviou gritinhos que me faziam arrepiar. Veio junto com a chuva, suave, doce, querendo me levar de cá pra lá e por muitos os lados. A chuva estava pingando num balde, ou num outro objeto, que fazia um som grave parecido com um acorde de violão.

Então o vento e a chuva entraram numa de me arrastar do caos, pelos cabelos esvoaçantes, na marra, para uma calmaria que só me fazia fechar os olhos e imaginar cada centímetro de pele, olhos, nariz, boca, barba; só pra não esquecer seu rosto. Como era mesmo seu rosto? Em formato retangular, queixo forte, nariz pontudo, sobrancelhas engraçadas e olhos tranquilos, que quando eu entrava neles, encontrava o equilíbrio. Por que quando acaba, só o que resta são pedaços de lembranças?

Engraçado que pensando melhor, acho que meu coração bateu mais forte quando o vento gritou lá fora, que quando pensei e tentei não esquecer seu rosto, e isso me causou estranhamento, como se eu estivesse me adaptando a essa nova forma de amor, imediatista, que muda tão rápido que nem dá tempo de presenciar duas ou três estações, uma ou duas constelações, que num dia é intenso, e no outro se torna volúvel. Tenho medo. Meu coração já não bate mais na garganta como antes, minha pele não vibra de arrepios, e eu perdi você com a mesma naturalidade com que perco minhas meias e passo a usar um pé de cada par.

Ouvi falar que o tempo é um bom lugar pra se guardar a saudade. Às vezes eu guardo nas palavras. E eu nem sei se o som que tá vindo lá de fora é o vento, a chuva, se são folhas dançando nas árvores, ou se são pedaços de saudades voando e indo embora. Mas o som parecido com acorde de violão tá muito lindo! Não vou dormir, vou escutar mais um pouquinho.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário