Miudezas

 

images

Não gosto de ponto de ônibus. Não gosto de esperas. Sempre tenho a sensação de que estou perdendo tempo da maneira mais inútil possível. Fico ali sentada, olhando os carros indo e vindo, torcendo para que o ônibus seja o próximo veículo a surgir na curva. Então passa uma família de formigas trabalhadoras, passa um casal de mosquitos e eu me pergunto se estão fazendo amor, quase parados no ar, um grudado no outro. Eu provavelmente sou a única pessoa ali a prestar atenção nisso, e já não sei se isso pode ser usado como parâmetro pra definir até que ponto sou louca ou até que ponto as outras pessoas são normais. Presto atenção em suas conversas (o que me torna alguém razoavelmente normal) e embora não as conheça, passo a me preocupar, a sentir empatia e ao passo que avançam em seus assuntos, formulo conselhos e respostas mentalmente. De um lado, o cara cheio de tatuagens, com seu cigarro e óculos retrô; do outro, a patricinha agarrada ao celular e à sua futilidade como se fizessem parte do seu próprio corpo; um pouco adiante, um casal estranho, se amando com os olhos e me fazendo torcer para que nunca queiram procriar pois são realmente estranhos.

O ponto de ônibus é o lugar perfeito pra alimentar preconceitos involuntários.

Em quase meia hora de espera, aproximadamente duas dúzias de pensamentos idiotas, inúteis e infantis. Uma ótima maneira de criar novas neuroses.

E nem sinal do desgraçado do ônibus. Já me senti indignada várias vezes, tive vontade de fingir um desmaio, quase cantei La Bamba em voz alta, pensei em andar em círculos e afogar as malditas formigas que continuam trabalhando. Pensei em puxar papo com a velhinha sentada ao meu lado, mas ela estava quase dormindo. Pensei em tirar o moletom e curtir o frio até meus dedos congelarem, sentir o vento queimar o rosto e o corpo entrar em frenesi e tremer incontrolavelmente em buscar de calor…

Então o ônibus finalmente aparece e as pessoas disputam o melhor lugar na fila. Eu como sempre, fico por último. Todos entraram no ônibus e nenhum deles prestou atenção no gritinho chorado do vento no ouvido, nem no contraste que tava fazendo aquele raio de sol fininho que clareava a diagonal da porta de entrada. Ninguém prestou atenção que o tempo que se perde no ponto de ônibus a caminho de um trabalho que vai nos tomar mais umas oito ou nove horas em troca de um salário absurdo; é inversamente proporcional ao tempo que investimos em amar nossa família e amigos, em notar o milagre de miudezas que acontece o tempo todo à nossa volta.

Entrei no ônibus, sentei no banco da janela, coloquei os fones de ouvido e não prestei atenção em mais nada.

Anúncios

Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s