Síndrome de Peter Pan com sinais de compulsão alimentar

tumblr_m6jk8zq6pt1r21288o1_500

“Do lado de lá da porta do quarto, existe um mundo inimaginável, mas sabe o que é engraçado? Mesmo sendo inimaginável você sempre poderá imaginá-lo da maneira que quiser, bem aqui, do lado de cá da porta do quarto.” E assim minha mãe me contava uma historinha sobre super-heróis e eu brigava com o sono, o olho meio fechado meio aberto, alegre por saber que eu teria um mundo bem grande pra imaginar. Nessa época não passou pela minha cabeça, que tempos depois eu me imaginaria sendo a filha de uma cabra que vivia numa chácara ao lado da minha casa, por acreditar que minha mãe não gostava de mim. Não que eu tivesse de fato algum motivo pra acreditar nisso, mas passei a alimentar esse sentimento, e outros que se acumulavam dentro de mim, e que eu não sabia definir, mas que pareciam chicletes derretendo no coração, apenas porque eu queria que meu mundo fosse dramático. Às vezes eu confundia “imaginação” com “mentir de mentirinha” e dizia pros coleguinhas que eu tinha poderes paranormais, ou que eu era uma super-heroína disfarçada a serviço do governo. Uma vez cheguei a convencer uma amiguinha que podia ficar invisível e ler mentes. Não sei se eles realmente acreditavam nas minhas histórias por causa da convicção com que eu as contava, ou se tinham preguiça de me dizer que eu era uma mentirosa idiota; na verdade não sei por que estou aqui tentando racionalizar a imaginação daquelas crianças, e a minha própria. Aliás, esse sempre foi um problema: imaginar, fantasiar, logo em seguida tentar racionalizar e me frustrar; quando a graça de imaginar é viver exatamente aquele mundinho originalmente seu, curtindo o prazer momentâneo de saber que ninguém imagina um mundinho da mesma maneira, o que consequentemente te faz sentir único e incrível por ser assim.

Eu gostava de inventar “quartos imaginários” pintados com tinta de arco-íris, texturas de maria-mole e telhado feito de nuvem de algodão doce. Personagens de desenhos entravam e saíam das paredes e eventualmente participavam de competições de montaria de unicórnio comigo. Eu sempre quis ter milhões de jujubas guardadas em um cofre e um dia me casar com um homem feito de sorvete, essa foi por muito tempo a minha ideia de futuro perfeito.  Mas eu fui crescendo, o quarto diminuindo, perdendo suas cores e passei a ter claustrofobia. Então em dias como hoje, sinto um desejo tão grande de ter sonhos doces como antes, que beira a gula, mas as lembranças desses sonhos só me fazem ter aquele sentimento de chiclete derretido no coração. Ai eu deito na cama, e penso que do lado de lá da porta do quarto existe um mundo de coisas que ficaram pra trás, e um mundo de coisas que tenho medo, que me intimidam; e do lado de cá não tem ninguém que me distraia de tudo isso trazendo algodão doce pra depois do jantar. As pessoas não percebem que doces me dão uma coragem absurda…

Anúncios

Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
Esse post foi publicado em Ansiedade, Conto, Expectativa, Infância, Tempo, Vida. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Síndrome de Peter Pan com sinais de compulsão alimentar

  1. João Paulo disse:

    Caramba! Acabei de ler alguns textos do seu blog e gostei bastante, mas esse, eu não podia deixar de comentar, foi espetacular…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s