Belo e transcendente

A gente era o tipo de casal que não precisava de plaquinha de “casal feliz” na porta ou adesivo no carro pra todo mundo saber que a gente se suportava e eventualmente era feliz. Você me dava novos ideais e se apropriava de alguns dos meus. Você ria genuinamente dos meus hábitos mais irracionais, e como isso me irritava! No meio de um sorriso cúmplice, você me fazia relutar ao pronunciar o “eu te amo” por medo de que meu tom de voz, sempre tão irônico, o fizesse soar falso.

 Parece até que foi ontem, quando você me levava de bicicleta na casa da Raquel, aquela garota louca que deixava uma porção de notas de dois reais enroladinhos como se fossem canudos pela casa e você me explicava que ela fazia isso porque usava as notas pra cheirar cocaína e eu te fazia prometer que nunca iria cheirar . A gente ia pro quarto e você acendia um baseado, enquanto me dizia coisas malucas sobre viver como um cavalo marinho e se mudar para o litoral. Então me beijava enquanto seus amigos tomavam vinho na sala. E por trás de todas aquelas risadas vindas do que parecia ser um mundo paralelo ao nosso, não conseguia parar de ouvir meu coração acelerado, batendo na garganta, embalando nossos beijos e cada vez mais me fazendo perder os sentidos. Se eu fechar bem os olhos agora, ainda sinto sua respiração, você respirava alto, entre meu pescoço e ouvido, eram momentos tão bons de inebriamento, que juro, não sentia nem uma pontinha de dúvida! Era uma espécie de salvação da minha alma, que parecia estar sempre à beira de um abismo. Era um sentimento tão forte que eu sabia que não podia se aplicar a realidade. Você roubava toda genialidade do poeta e me oferecia, assim de graça, apenas no olhar, esse mesmo olhar que me fazia querer abraçar a humanidade.

Você não sabe, mas eu te guardei só pra mim em uma espécie de idealizaçãozinha só nossa (porque dizer que é só minha seria contradizer minha própria idealização). Nesta nossa idealizaçãozinha, somos almas perdidas, separadas por alguma fatalidade aparentemente irreparável, em busca da eventualidade, do milagre que acreditamos cegamente que irá acontecer, por uma circunstância totalmente nova, que fará tudo de repente mudar, que fará surgir novamente o nosso ponto de encontro, e tudo será maravilhoso como antes. Carinhosamente apelidamos esse momento de “belo e transcendente”

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Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
Esse post foi publicado em Amor, Conto, Expectativa, Tempo, Vazio. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Belo e transcendente

  1. Nauru disse:

    I have not checked in here for some time as I thought it was getting boring, but the last several posts are good quality so I guess Iˇ¦ll add you back to my everyday bloglist. You deserve it my friend :)

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