O vazio enormíssimo

Virei à chave no contato do carro e sai. Uma espécie de ritual de relaxamento: sair por ai dirigindo à noite, sem rumo, sem hora pra voltar, sem nenhuma ideia do que fazer. Eu nunca vou muito longe, pois meu senso de responsabilidade em relação às virtudes cívicas não me deixa simplesmente largar tudo pra trás e dirigir até a gasolina acabar. Mesmo assim eu brinco de imaginar que estou deixando à cidade. Eu dirijo pelos lugares que mais gosto, a cada curva uma despedida, cada semáforo um desafio para uma corrida e nessa hora eu realmente acelero para imprimir certo realismo. A garota urbana que sai dirigindo sozinha à noite, desafiando semáforos com a janela do carro aberta, na iminência de um assalto e pouco se importando ao fator perigo. Vejo as ruas vazias e imagino quantas pessoas já passaram pelos mesmos lugares, refletindo sobre suas vidas sujas, doentias, ou apenas conversando sobre o tempo e toda aquela desimportância cotidiana que somos obcecados em comentar quando não temos outro assunto ou quando temos tantos assuntos urgentes que não temos coragem de dizê-los porque isso tomaria muito o tempo das pessoas e elas são realmente muito ocupadas. Passo por uma avenida movimentada e vejo algumas putas: pouca roupa e muito corpo, muito brilho na maquiagem e pouco brilho nos olhos, homens abordando-as de maneira vulgar, com tapas na bunda, puxando-as pelo decote, homens que me deixam enojada e que me fazem pensar que as putas têm uma vida realmente difícil. Vejam bem o que elas encaram todos os dias e ainda sim são tão sinceras, fazem por dinheiro e não precisam mentir sobre nada, ou melhor, talvez ocultem uma doença venérea, mas enfim, as putas são admiráveis. O vazio de uma existência sendo preenchido por uma busca infinita de dinheiro. Nós não somos tão diferentes delas, apenas buscamos maneiras diferentes de preencher esse vazio. Há quem acredite que o vazio existencial efetivamente pode ser preenchido por deus, ou deuses, ou rituais, ou algo em que acreditar. De qualquer modo, a ânsia por não senti-lo, busca muitas vezes na falta de limites a sua cura, quando na verdade a consciência exagerada do vazio que é uma verdadeira e completa doença. Continuo minha turnê noturna e esbarro em putas, drogados, bêbados, jovens voltando de baladas divertidíssimas, imagino, e passo por vidros gigantescos que me refletem. Qual a diferença entre eles e eu? Afinal, estamos todos buscando, de formas diferentes, nos sentirmos melhores, ou foder de vez com a vida. Talvez eu só queira gastar o meu tempo. Volto pra casa o mais devagar possível, ainda querendo aproveitar o último aroma de “noite vazia”, as ruas agora estão desertas, canto, minha voz soa estranha, calma, um timbre doce, embargado.

Na verdade gostaria de gritar algumas verdades destinadas a deus ou talvez destinadas a mim mesma.

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Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
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Uma resposta para O vazio enormíssimo

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