O forte

Eu tive um forte. Quando criança eu chamava de cantinho de chorar. Era o lugar para onde eu corria sempre que minha mãe ou meu pai brigavam comigo, e quando me tornei adolescente ficava lá por horas pensando nos garotos da escola. Com o passar do tempo comecei a usar meu forte para ouvir música, pensar em coisas aleatórias e posteriormente comecei a escrever; sempre levava os fones de ouvido e um radinho tocando Beatles ao máximo volume. Gostava dos fones e da música ensurdecedora que de certa forma, me permitiam eliminar a realidade ao redor numa espécie de casulo sonoro só meu e assim eu conseguia relaxar e me sentir livre. Tão livre que sentia uma vontade absurda de correr na máxima velocidade a ponto de estourar os pulmões. Imaginem só como seria inusitada, uma pequena matéria no noticiário de domingo “jovem morre por insuficiência respiratória após correr como uma louca em velocidade vertiginosa. Ninguém sabe a motivação da corrida”. Somente ela saberia. Morreria de ansiedade de viver, não seria irônico? Sempre foi assim, primeiro a insônia, depois a vontade de exagerar de tanto viver, sem saber como, a experiência metafísica, a angústia, a inquietude. Buscava outras portas, outras saídas, e o alento muitas vezes estava no forte e na música que relaxava através dos fones. Buscava por algo sem descanso, como a última gota de vida e continuava me sentindo como uma partícula solta ao vento, sem mobilidade própria, levada pelas correntes de ar, e eram correntes quentes e sufocantes, como se eu estivesse no meio de um bolo de algodão. A vida não deveria ser solitária, pessoas importantes não deveriam se deslocar dos nossos caminhos para um lugar chamado lembrança. A solidão teimosa de alguém que perde alguém e se recusa a encontrar outro alguém, porque no fundo acredita que aquele primeiro alguém um dia vai acordar e pensar em como deveria estar comigo e voltar. Comparar sentimentos e pessoas e nunca achar que serão suficientes. Ter a sensação de que não importa o que aconteça e com quem eu esteja, vou correr o risco de você voltar e acabar desistindo de tudo por você. A grande ironia de quem está sempre tentando esquecer. Acabo ficando com o “levando a vida” tentando me concentrar no “seguir em frente” de uma forma talvez mais razoável e normal possível sem tentar decifrar o “e se…” que sempre fica.

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Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
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