O bar

O bar dava pra uma calçada muito movimentada, até mesmo nas altas horas da madrugada. Eu gostava de ficar nas mesas de fora, mesmo quando chovia. Eu gostava de ficar ali observando as pessoas indo e vindo, sorrindo, falando ao celular, com olhar perdido, passos apressados. O bar estava sempre cercado por jovens efusivos e falantes que gostavam de beber muito e mostrar o quanto eram descolados em seus carros do ano. Eu obviamente não parecia pertencer àquele lugar, com minha aparência de alcoólatra, cabelo desalinhado e já com os primeiros indícios de grisalho, dirigindo um carro do século, o opala de pintura azul desgastada. Por várias vezes me perguntei o porquê de sempre voltar lá, talvez pela calçada movimentada e pelo preço que não era ruim. Tinha também o fato de que eu me sentia depressivo ali sozinho e quanto mais miserável eu me sentisse, mais eu bebia e aliviava as coisas. Eu sei que não faz sentido algum, mas naquela altura da minha vida, poucas coisas fariam sentido. Às vezes eu brincava de imaginar como era a vida dos transeuntes; via um velho gordo com cara de tarado, acendendo um cigarro, e imaginava que estava indo ao seu escritório principal, onde gerenciava sua rede de bordéis. Passava uma loira alta de boca vermelha e vestido colado ao corpo, e eu imaginava que pelo rosto de vadia, provavelmente estava indo ao encontro de um cliente que pagaria uma grana extra pra ela participar de uma orgia com uma morena gostosa de lábios carnudos e um loiro bonito de pênis pequeno que só conseguia mulher quando pagava. Eu me divertia muito com essas suposições sobre a vida alheia, talvez pelo fato de que eu não tinha a menor ideia do que fazer com a minha. Era lamentável não saber o que eu queria da vida. Afinal do que eu precisava?  Olhares trocados, palavras ditas, alma entregue, um pouco mais de tempo ou paciência, alguma saída que não fosse apenas escrever? Eu sei que precisava de fato escrever, pra não enlouquecer, pra passar o tempo, pra esperar a saída da minha vida ou pra simplesmente imaginá-la a meu modo. E o meu tempo estava sempre escorrendo em punhetas mal batidas, no silêncio insuportável antecedendo o gozo reprimido, nas vontades escritas, lidas e relidas e mal entendidas. Eu estava sempre à espera de abraços esperando por mim, uma ligação no meio do dia, um interesse genuíno que fosse além da minha péssima boa aparência, alguns problemas que não fossem meus pra me preocupar, uma mulher de corpo flexível, cabelos longos e negros, que fosse maluca, mas não muito, uma mulher que não tivesse apenas feições bonitas e seios grandes. Eu precisava de uma alegria sem cronômetro, olhos que não evitassem os meus e sorrisos que eu não conseguisse estragar, uma presença que eu não quisesse afastar. E como em outras vezes, eu voltava àquele bar, bebia até a hora de fechar, pegava meu opala azul e dirigia até onde morava, não parava de pensar se realmente deveria ter aceitado aquele “não”, tudo indicava que ela gostava realmente de mim e eu que tinha bancado o durão, talvez por ser desligado demais, talvez porque as mulheres não saibam esperar um homem se tornar maduro ou esperto o bastante pra entendê-las. O fato é que no caminho pra casa eu sempre acabava nos abraços da mesma puta.

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Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
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2 respostas para O bar

  1. milenaanjo disse:

    Muito foda seu texto!

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