As lembranças ficarão até não estarem mais.

Despedida

Foi quando ela parou de falar que tive certeza de que não mais a teria. Ela sempre falava por horas, questionando, planejando, dando ordens, ora arisca, ora suave. Sempre às voltas com seus ciúmes, despejava intermináveis discursos e cobranças em cima de mim, e logo em seguida habilmente me devolvia à paz dizendo melosamente que me amava e me fazia prometer que nunca a deixaria. Mas naquele dia suas palavras se limitaram a um “não tenho mais o que dizer”. Ambos sabíamos que não havia culpados. Nosso amor estava pairando no ar em ondas de magnetismo, entretanto, enquanto a física nos aproximava a geografia nos distanciava. Olhei pela última vez em seus olhos castanhos e vi que ainda me devotavam amor, foi como se visse o meu melhor ali, num brilho fosco pelas lágrimas. Eu sabia que nunca esqueceria aquelas sardas em torno do seu nariz, aquele rosto pequeno e inocente, aquele temperamento excessivo e inquieto que a fazia acreditar em tudo que era impossível. No fundo eu sabia que ela esperava que eu também acreditasse nas coisas impossíveis que ela me dizia. Por fim eu a ouvi falando muito baixo, quase inaudível ”vai me deixar ir?”, e isso foi o que mais me doeu, eu tinha medo de não fazê-la feliz, e por isso a deixei ir. Sabia que talvez fosse à coisa mais estúpida e covarde, mas pior que viver sem ela seria fazê-la infeliz. Enquanto a via me deixar, refiz mentalmente os nossos dias juntos, a única vez na vida que me senti como se vivesse em uma órbita a parte de toda existência. Ela tinha os beijos mais doces e o olhar mais sincero. Era a mulher mais louca, ia de um estremo a outro tão rápido quanto falava, aliás, tinha uma vontade quase imoral de dizer as palavras. E olhando agora pra sua foto no meu celular, sorri, chorei, senti uma necessidade quase vital de tê-la, de respirá-la, de refazer tudo que vivemos e muito mais, em algum lugar… Apenas um lugar que fosse possível. Eu só queria abraçá-la e dizer “vai ficar tudo bem”, mas tudo o que consegui foi tentar me convencer disso, afinal sempre fica tudo bem, mesmo sentindo um puta medo de viver sem ela, sem aquelas palavras que me salvavam “que isso amor, não fica assim, a gente trabalha junto, a gente se ama e fica tudo bem” “eu sou sua, lembra?” ela era uma mulher de planos, sempre tinha um, até mesmo pra iniciar seu dia, e agora eu sabia que seu plano era me esquecer. Eu também teria que esquecê-la e seria como matar uma parte de mim, me apegando ao fato de que como a mulher obstinada que ela é, logo vai me esquecer e encontrar outro e ser muito feliz, e isso deveria ser suficiente, mas não é.

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Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
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2 respostas para As lembranças ficarão até não estarem mais.

  1. milenaanjo disse:

    Realmente lindo e emocionante o conto… Não sei se é uma história verdadeira, mas realmente me emocionou! Parabéns =)

  2. Milena a história é baseada em algo real sim, mas não totalmente. Aliás, acho que quando escrevemos (pelo menos eu) existe sempre uma ou várias inverdades, que de certa forma se tornam verdades pra quem lê, ou pelo menos deveria.

    Obrigada! =)

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