A grande bolha

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Num belo domingo de primavera e na iminência de cumprir mais um dever de cidadão, João olhava sua imagem no espelho e notava como suas barbas pareciam ocultar algumas das muitas marcas de sua vida sofrida.  A ele era óbvio entender que vivia preso dentro de uma grande bolha, de aspecto superficial e quase imperceptível, mas de consistência viscosa e impermeável. Não era capaz de entender como funcionava tal sistema de vida, ou melhor, dizendo, de liberdade.  Se matava de trabalhar, dia após dia, talvez inclusive sem saber ao certo se de fato chegaria a sentir prazer por isso, além de satisfazer seu apetite e senso de responsabilidade, que nem chegava a ser um prazer, mas sim um sentimento automático de dever cumprido.

Compreendia muito bem, que caso desejasse manter uma conexão intacta com o que era considerado aceitável pela maioria, não poderia se dar ao luxo de ficar imaginando perguntas tão complexas como aquelas que, vez ou outra, vinham perturbar suas reflexões – Onde estava o sentido de tal sistema de pátria e por que essa tal liberdade soava mais como uma grande prisão fantasiosa? – E ao fim de cada reflexão, decepcionava-se consigo mesmo ao passo que entendia que tais questionamentos deveriam ser perfeitamente aceitáveis e a conexão que ele temia perder era com a comodidade de apenas continuar com o que devia ser feito, sem maiores ilusões de que as coisas seriam melhores.

Não chegava a sofrer por sentir que não fazia parte do lugar que vivera sua vida toda, mas não sabia ao certo se estaria melhor ali ou em qualquer outro lugar. Falava-se tanto de evolução e ascensão política, e isso de fato era notório, uma vez que milhares de figuras da política(gem) viviam tranquilos por ai, esbanjando a prosperidade lhes assegurada através dos seus ganhos públicos (sujos). E ao mesmo tempo em que prometiam liberdade, melhores condições de vida e asseguravam respeitar o direito de cada cidadão vivente, fingiam ignorar o fato de que a justiça – tão necessária quanto à liberdade, se tornando às vezes a própria liberdade – estava sendo posta de lado, e as pessoas não enxergavam detalhes como este, devido ao efeito distorcido criado em torno delas pela grande bolha, como João dizia na falta de palavras que descrevessem a impotência que sentia.

Mas, desde os tempos de adolescência, João encarava o período eleitoral com muita seriedade, e se orgulhava – mesmo que negasse a si mesmo – do fato de ao menos nesse pequeno ato de dever e direito público ser meticulosamente consciente e constante, e apenas neste ato. Sentia que era um dos únicos momentos em que era possível fazer valer a sua opinião, mesmo que os resultados nem sempre fossem diretamente proporcionais a tal determinação, se orgulhava de ser um cidadão em exercício da cidadania. E saindo, debaixo de um sol vigoroso, erguia a cabeça caminhando em direção as urnas eleitorais, torcendo no fundo para que seus sucessores fizessem melhor papel na vida do que ele fez nos seus cinquenta e poucos anos, João se sentia um Zé ninguém.

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Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
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2 respostas para A grande bolha

  1. milenaanjo disse:

    Belo texto, parabéns!

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