Uma vida subdesenvolvida

Por Fabiana Silva

Estava ali a admirar aquela garota, uma quase adulta. Trocamos algumas palavras, e ela não podia me olhar nos olhos, como se minhas atitudes a ofendessem. Mantinha gestos decorados e tudo o que lhe importava na vida eram sua família e seus ensinamentos. Não se atrevia a pensar em mais nada.

Ela era uma garota de poucos atributos. Mal sabia como se vive uma vida, muito menos elaborar sonhos. Ela levava dias ou até meses para decifrar um sentimento. Às vezes confundia sorrisos e olhares e facilmente se enganava. Ela não se conhecia.

Ela não sabia sonhar e preferiu continuar uma capitulação distraída. Ela era uma deslocada desde que se entendia por gente, faltava-lhe imaginação. Ela era muito observadora e por isso se mantinha sempre fora do campo de visão das pessoas.  Ela era uma sentimental.

A família a honra e valores eram tudo pra ela. Ela preferia não se conhecer, pois isso parecia trazer riscos a tradição e bons costumes. Sua aparência era um campo inexplorado pra ela, vivia angustiada com seu jeito desconjuntado. Ela se perguntava – o que era afinal? Ela preferia não discutir o assunto.

Ela se sentia como um equívoco. Deus quando a criou, estava concluindo diversos projetos e se distraiu no meio da criação. Ela sentia uma pequena revolta por isso, mas sabia que não deveria demonstrar. Era como se tivesse outra dela por dentro, uma que não precisava de reajustes. Ela era uma desistência.

Ela gostava das pessoas pelo que lia em revistas e livros, não tinha amigos interessantes. Ela tinha uma visão trágica das coisas, não entendia o motivo de tanta rigidez moral. Ela por vezes se perguntava – se não era o que queria ser, quem era afinal? A vida era uma provocação.

Fiquei um longo tempo a observando, e notei que isso parecia um desafio pra ela. No principio ela me pareceu uma personalidade suicida, ou a exceção dos exageros no mínimo uma personalidade inexpressiva, mas ao observá-la melhor compreendi que tudo não passava do reflexo da intransigência moral que a cercava. Ela era uma alma subdesenvolvida.

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Sobre detantopensarescrevi

Um dia acordei e estava espalhada, haviam palavras por todos os lados, e não tinha como junta-las, foi então que decidi escrevê-las.
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